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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Resenha - Fahrenheit 451 de Ray Bradbury

Olá meus amigos desinformados, tudo bem por aí?

A resenha de hoje é de um clássico, e, com ele, eu termino a leitura da grande trinca das distopias. Venha ver o que eu achei de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

CAPA: 


Capa da mais recente edição da Biblioteca Azul, um subgrupo da editora globo. Nela, um bombeiro sem rosto, oculto talvez pelas chamas que ele mesmo causou...

SINOPSEEscrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, Fahrenheit 451, de Ray Bradubury, revolucionou a literatura com um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. Agora, o título de Bradbury, que morreu recentemente, em 6 de junho de 2012, ganhou nova edição pela Biblioteca Azul, selo de alta literatura e clássicos da Globo Livros, e atualização para a nova ortografia.

A singularidade da obra de Bradbury, se comparada a outras distopias, como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou 1984, de George Orwell, é perceber uma forma muito mais sutil de totalitarismo, uma que não se liga somente aos regimes que tomaram conta da Europa em meados do século passado. Trata-se da “indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético – a moral do senso comum”, segundo as palavras do jornalista Manuel da Costa Pinto, que assina o prefácio da obra. Graças a esta percepção, Fahrenheit 451 continua uma narrativa atual, alvo de estudos e reflexões constantes.

O livro descreve um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos.

Fahrenheit 451 tornou-se um clássico não só na literatura, mas também no cinema. Em 1966, o diretor François Truffaut adaptou o livro e lançou o filme de mesmo nome estrelado por Oskar Werner e Julie Christie. 

DADOS TÉCNICOS: 2012 (1953), 215 páginas, Biblioteca Azul, Ray Bradbury

RESENHA: Fahrenheit 451 é um daqueles clássicos que todos somos recomendados a ler. Também é, ao lado de 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Audous Huxley, considerado parte da santíssima trindade da distopia. Será que é tudo isso?

Uma curiosidade é que o nome do livro se refere à temperatura da queima do papel, algo em torno de 230 graus Celsius. Outro detalhe, esse pessoal, é que morei durante toda a minha infância e adolescência numa casa com o numeral 451. Acho que é o destino...

UMA METÁFORA FORTE: Imagine um mundo onde os bombeiros não apagam incêndios, mas os provocam. Imagine agora que esses incêndios têm o objetivo de queimar os livros, esse objeto terrível e perigoso que algumas pessoas insistem em manter em suas casas.

Esse é o mundo onde vive Montag, nosso protagonista, um homem que, como a maioria das pessoas vive no automático, até um dia em que acontece algo diferente e ele desperta, começa a questionar o sistema e resolve fazer algo para modificá-lo.

UM BOM VILÃO: O capitão Beatty, homem que conhece Shakespeare de cor, é o grande vilão dessa trama. E tudo o que ele faz é desconfiar do protagonista. Não poderia ser mais simples e eficiente. Destaque também para o Sabujo, uma espécie de cachorro mecânico capaz de caçar e eliminar suas vítimas.

UMA MULHER VITIMADA PELO SISTEMA: Mildred, a esposa de Montag, é uma personagem bastante interessante, porque é através dela que entendemos como o sistema funciona, por que as pessoas abandonaram os livros e como elas se tornaram vazias. Em uma passagem, Montag pergunta a mulher quando e onde eles se conheceram, mas ela é incapaz de se lembrar, dizendo apenas que isso não tem importância.

CONTROLE:  Toda boa distopia precisa de um mecanismo de controle. Em 1984, temos a severa vigilância do governo, em Admirável Mundo Novo a felicidade proporcionada pelo Soma e em Fahrenheit 451 temos a televisão.
Lançado em 1953 o livro já previa o quanto a televisão, e depois a internet, poderia ser o mecanismo de controle perfeito, tornando a população imbecil e incapaz de perceber aquilo que realmente importa.

Durante a leitura entendemos que os livros não foram proibidos, mas rejeitados, porque nos fazem pensar, e isso nos deixa tristes. O governo nem precisa perseguir as pessoas, já que elas mesmas denunciam os seus vizinhos que têm livros para que estes sejam queimados.

Se em 1984 temos a opressão e em admirável mundo novo temos o circo, aqui temos a perda da esperança como a grande ferramenta de controle. Uma ferramenta poderosa.

GAPS NA TRAMA: A obra aqui citada foi escrita numa máquina de escrever alugada no porão de uma biblioteca. Essa história é contada pelo próprio autor no posfacio desta edição e mostra como ele era talentoso, pois conseguiu escrever uma obra dessa magnitude com pressa. Imagine o que ele teria feito com um computador...

Ele mesmo teve ciência, muitos anos depois, que haviam gaps na trama. Faltaram explicações para a motivação do vilão e para o acontecimento envolvendo a vizinha que Montag conhece logo no começo do livro. O próprio autor pensou em acrescentar esses detalhes à obra posteriormente, mas achou melhor deixá-la como nasceu, mesmo com esses pequenos defeitos.

Ele inclusive reclama, ao meu ver com razão, da chatice politicamente correta que o nosso mundo se tornou, onde grande obras como esta deixam de ser apreciadas por este ou aquele pequeno defeito.

Eu estava disposto a criticar aqui algumas partes do texto, principalmente até a metade do livro, que achei confusas, mas me rendi à explicação do autor e também resolvi elevar a nota que daria ao livro.

CONCLUSÃOFahrenheit 451 é uma daquelas obras que deveria ser indicada para leitura em escolas, pois precisamos parar e pensar um pouco mais ao invés de seguir o fluxo, coisa que acontece em demasia nos dias atuais.

É uma leitura bastante rápida e mais fácil de se concluir do que os seus pares citados aqui.

Nota 5,0 no Skoob porque os clássicos merecem respeito!

Leia se você quer sair dessa imobilidade, melhorar o seu senso crítico e ainda se divertir.

Não leia se você for um chato e só estiver à procura de defeitos.


Abraços

Dan Folter

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Análise literária - Admirável mundo novo de Audous Huxley

Olá meus caros leitores desinformados, como vocês estão?

Hoje é dia de clássico. Falaremos de um livro daqueles que deveriam ser solicitados nas escolas, discutidos nas mesas de bar, perguntados nos programas de auditório...

Admirável novo mundo de Audous Huxley.



Capa:


Coloquei a capa da versão lida por mim, da editora Globo e que não é das melhores. A cabeça cheia de circuitos é uma alusão à programação que as pessoas recebem na história, mas não é esteticamente interessante, e ainda traz um viés tecnológico que não é o mote do livro.

SINOPSEAno 634 d.F. (depois de Ford). O Estado científico totalitário zela por todos. Nascidos de proveta, os seres humanos (pré-condicionados) têm comportamentos (pré-estabelecidos) e ocupam lugares (pré-determinados) na sociedade: os alfa no topo da pirâmide, os ípsilons na base. A droga soma é universalmente distribuída em doses convenientes para os usuários. Família, monogamia, privacidade e pensamento criativo constituem crime.

Os conceitos de "pai" e "mãe" são meramente históricos. Relacionamentos emocionais intensos ou prolongados são proibidos e considerados anormais. A promiscuidade é moralmente obrigatória e a higiene, um valor supremo. Não existe paixão nem religião. Mas Bernard Marx tem uma infelicidade doentia: acalentando um desejo não natural por solidão, não vendo mais graça nos prazeres infinitos da promiscuidade compulsória, Bernard quer se libertar. Uma visita a um dos poucos remanescentes da Reserva Selvagem, onde a vida antiga, imperfeita, subsiste, pode ser um caminho para curá-lo. Extraordinariamente profético, "Admirável mundo novo" é um dos livros mais influentes do século 20.

DADOS TÉCNICOS: 2001 (1932),  314 páginas, Editora Globo, Audous Huxley

ANÁLISE: Esta será uma análise um pouco diferente do habitual, afinal falarmos que se trata de um grande clássico da ficção científica, de um exemplo de distopia e de livro que todos deveriam ler seria chover no molhado.
Ao invés disso, vamos utilizar esse grande clássico para mostrar como muitas das "regras sagradas" da literatura podem ser quebradas quando se tem uma boa história para contar.

Escrito em 1931 e publicado no ano seguinte, o livro mostra a preocupação do autor com regimes totalitaristas como os que estavam acontecendo na extinta União Soviética e na Alemanha nazista pouco antes da segunda guerra mundial. Por isso é interessante analisarmos o contexto da época antes de julgamos algumas das revoluções científicas e dos métodos relatados, bem como alguns pedaços que podem não soar bem numa cultura politicamente correta em demasia como a dos dias de hoje.

Vamos desmitificar?

LIVRO BOM PRECISA DE RITMO FRENÉTICO: Uma das grande lendas literárias da atualidade diz respeito ao ritmo em que as histórias devem ser contadas. Segundo os "entendidos" é preciso enxugar o texto ao máximo e colocar acontecimentos o tempo inteiro para prender a atenção do leitor. Algo como um filme de Michael Bay onde pouco se entende da história dada a velocidade dos eventos.
Pois se você acredita nisso vai se surpreender logo de cara com Admirável mundo novo já que a trama começa com uma enorme explicação de como a sociedade funciona e demora bastante até começar a explorar alguns dos personagens mais de perto.
O ritmo mais lento, além de normal para a época em que a obra foi escrita, é necessário para que o leitor possa absorver e compreender o que foi lido.

INFODUMP É RUIM: Você já deve ter ouvido falar em infodump. É a técnica utilizada por alguns autores para descrever partes da história e situar o leitor, muito comum em universos de ficção e fantasia onde o mundo e as criaturas que vivem nele não são iguais ao que conhecemos. A técnica é severamente criticada, mesmo quando acontece disfarçada nos diálogos como é feito nos primeiros capítulos de Admirável mundo novo.
Audous Huxley utiliza uma excursão de estudantes para apresentar o centro embrionário britânico e o diretor dá uma verdadeira palestra para eles e para o leitor de como tudo funciona naquela realidade.
Isso nos mostra que o problema não é o infodump em si, mas a qualidade (ou não) do autor em utilizá-lo que vai separar um bom livro de outro ruim.

UM LIVRO É TÃO BOM QUANTO SEU PROTAGONISTA: Muitos dirão que é preciso um protagonista bem definido em um bom livro, pois isso causa identificação com o leitor que passa a torcer para ele.
Admirável mundo novo foge completamente a essa regra pois o livro não define claramente um protagonista. Temos o diretor, Bernard, Lenina, personagens que se revezam na primeira metade do livro e da metade para o fim o foco recai sobre um novo núcleo de personagens, que é do selvagem John e sua mãe, Linda.
Quase não há coadjuvantes e não nos aprofundamos muito em nenhum dos protagonistas, salvo talvez o selvagem, que é mais explorado no fim da obra.
O grande personagem aqui é a sociedade, é o coletivo, assim como o diretor tenta convencer o selvagem, o autor tenta nos convencer de que ninguém é mais importante que a sociedade em si.

FINAL ARREBATADOR: O personagem principal duela contra o vilão, salva o mundo e reconstrói o que fora destruído num final cheio de reviravoltas especulares... não, você não vai encontrar um final espetacular em Admirável novo mundo, ao invés disso você encontrará um final brusco, mas coerente.
Não há um grande clímax na história nem uma mudança enorme nos personagens após passarem por provações. Admirável novo mundo acaba sem avisar e nem se preocupa em fechar pontos que foram abertos ou explicar como cada personagem termina, como aconteceria em uma novela.
E isso de forma nenhuma tira algum mérito do livro. Mais uma vez encaro como uma forma que o autor encontrou para dar ênfase ao cenário distópico e a não a esse ou aquele personagem.
O final também deixa claro o pessimismo do autor em relação à raça humana como um todo, sem apelar para a demagogia ou um final hollywoodiano. Assim como no mundo real, as pessoas se adaptam ao mundo e não o modificam de uma hora para outra.

CONCLUSÃO: Admirável mundo novo é um livro genial, justamente por quebrar com tantas convenções e mesmo assim permanecer relevante e interessante tantos anos após o seu lançamento. A obra discute de forma inteligente como a raça humana pode ser facilmente controlada quando se oferece o mínimo para que sobreviva sem grandes problemas, como a tão conhecida técnica do "pão e circo".

Leia se você gosta de distopias, histórias com profundidade e discussão sobre o comportamento humano.
Não leia se... não tem essa de não ler!!  Esse é obrigatório!

E depois de ler ou se você já havia lido, deixe aqui o seu comentário sobre o livro e sobre essa análise. Você concorda com os pontos discutidos? tem algo a acrescentar? então participe!!

Abraços
Dan Folter!