segunda-feira, 16 de abril de 2018

Análise literária - Admirável mundo novo de Audous Huxley

Olá meus caros leitores desinformados, como vocês estão?

Hoje é dia de clássico. Falaremos de um livro daqueles que deveriam ser solicitados nas escolas, discutidos nas mesas de bar, perguntados nos programas de auditório...

Admirável novo mundo de Audous Huxley.



Capa:


Coloquei a capa da versão lida por mim, da editora Globo e que não é das melhores. A cabeça cheia de circuitos é uma alusão à programação que as pessoas recebem na história, mas não é esteticamente interessante, e ainda traz um viés tecnológico que não é o mote do livro.

SINOPSEAno 634 d.F. (depois de Ford). O Estado científico totalitário zela por todos. Nascidos de proveta, os seres humanos (pré-condicionados) têm comportamentos (pré-estabelecidos) e ocupam lugares (pré-determinados) na sociedade: os alfa no topo da pirâmide, os ípsilons na base. A droga soma é universalmente distribuída em doses convenientes para os usuários. Família, monogamia, privacidade e pensamento criativo constituem crime.

Os conceitos de "pai" e "mãe" são meramente históricos. Relacionamentos emocionais intensos ou prolongados são proibidos e considerados anormais. A promiscuidade é moralmente obrigatória e a higiene, um valor supremo. Não existe paixão nem religião. Mas Bernard Marx tem uma infelicidade doentia: acalentando um desejo não natural por solidão, não vendo mais graça nos prazeres infinitos da promiscuidade compulsória, Bernard quer se libertar. Uma visita a um dos poucos remanescentes da Reserva Selvagem, onde a vida antiga, imperfeita, subsiste, pode ser um caminho para curá-lo. Extraordinariamente profético, "Admirável mundo novo" é um dos livros mais influentes do século 20.

DADOS TÉCNICOS: 2001 (1932),  314 páginas, Editora Globo, Audous Huxley

ANÁLISE: Esta será uma análise um pouco diferente do habitual, afinal falarmos que se trata de um grande clássico da ficção científica, de um exemplo de distopia e de livro que todos deveriam ler seria chover no molhado.
Ao invés disso, vamos utilizar esse grande clássico para mostrar como muitas das "regras sagradas" da literatura podem ser quebradas quando se tem uma boa história para contar.

Escrito em 1931 e publicado no ano seguinte, o livro mostra a preocupação do autor com regimes totalitaristas como os que estavam acontecendo na extinta União Soviética e na Alemanha nazista pouco antes da segunda guerra mundial. Por isso é interessante analisarmos o contexto da época antes de julgamos algumas das revoluções científicas e dos métodos relatados, bem como alguns pedaços que podem não soar bem numa cultura politicamente correta em demasia como a dos dias de hoje.

Vamos desmitificar?

LIVRO BOM PRECISA DE RITMO FRENÉTICO: Uma das grande lendas literárias da atualidade diz respeito ao ritmo em que as histórias devem ser contadas. Segundo os "entendidos" é preciso enxugar o texto ao máximo e colocar acontecimentos o tempo inteiro para prender a atenção do leitor. Algo como um filme de Michael Bay onde pouco se entende da história dada a velocidade dos eventos.
Pois se você acredita nisso vai se surpreender logo de cara com Admirável mundo novo já que a trama começa com uma enorme explicação de como a sociedade funciona e demora bastante até começar a explorar alguns dos personagens mais de perto.
O ritmo mais lento, além de normal para a época em que a obra foi escrita, é necessário para que o leitor possa absorver e compreender o que foi lido.

INFODUMP É RUIM: Você já deve ter ouvido falar em infodump. É a técnica utilizada por alguns autores para descrever partes da história e situar o leitor, muito comum em universos de ficção e fantasia onde o mundo e as criaturas que vivem nele não são iguais ao que conhecemos. A técnica é severamente criticada, mesmo quando acontece disfarçada nos diálogos como é feito nos primeiros capítulos de Admirável mundo novo.
Audous Huxley utiliza uma excursão de estudantes para apresentar o centro embrionário britânico e o diretor dá uma verdadeira palestra para eles e para o leitor de como tudo funciona naquela realidade.
Isso nos mostra que o problema não é o infodump em si, mas a qualidade (ou não) do autor em utilizá-lo que vai separar um bom livro de outro ruim.

UM LIVRO É TÃO BOM QUANTO SEU PROTAGONISTA: Muitos dirão que é preciso um protagonista bem definido em um bom livro, pois isso causa identificação com o leitor que passa a torcer para ele.
Admirável mundo novo foge completamente a essa regra pois o livro não define claramente um protagonista. Temos o diretor, Bernard, Lenina, personagens que se revezam na primeira metade do livro e da metade para o fim o foco recai sobre um novo núcleo de personagens, que é do selvagem John e sua mãe, Linda.
Quase não há coadjuvantes e não nos aprofundamos muito em nenhum dos protagonistas, salvo talvez o selvagem, que é mais explorado no fim da obra.
O grande personagem aqui é a sociedade, é o coletivo, assim como o diretor tenta convencer o selvagem, o autor tenta nos convencer de que ninguém é mais importante que a sociedade em si.

FINAL ARREBATADOR: O personagem principal duela contra o vilão, salva o mundo e reconstrói o que fora destruído num final cheio de reviravoltas especulares... não, você não vai encontrar um final espetacular em Admirável novo mundo, ao invés disso você encontrará um final brusco, mas coerente.
Não há um grande clímax na história nem uma mudança enorme nos personagens após passarem por provações. Admirável novo mundo acaba sem avisar e nem se preocupa em fechar pontos que foram abertos ou explicar como cada personagem termina, como aconteceria em uma novela.
E isso de forma nenhuma tira algum mérito do livro. Mais uma vez encaro como uma forma que o autor encontrou para dar ênfase ao cenário distópico e a não a esse ou aquele personagem.
O final também deixa claro o pessimismo do autor em relação à raça humana como um todo, sem apelar para a demagogia ou um final hollywoodiano. Assim como no mundo real, as pessoas se adaptam ao mundo e não o modificam de uma hora para outra.

CONCLUSÃO: Admirável mundo novo é um livro genial, justamente por quebrar com tantas convenções e mesmo assim permanecer relevante e interessante tantos anos após o seu lançamento. A obra discute de forma inteligente como a raça humana pode ser facilmente controlada quando se oferece o mínimo para que sobreviva sem grandes problemas, como a tão conhecida técnica do "pão e circo".

Leia se você gosta de distopias, histórias com profundidade e discussão sobre o comportamento humano.
Não leia se... não tem essa de não ler!!  Esse é obrigatório!

E depois de ler ou se você já havia lido, deixe aqui o seu comentário sobre o livro e sobre essa análise. Você concorda com os pontos discutidos? tem algo a acrescentar? então participe!!

Abraços
Dan Folter!
Postar um comentário