sexta-feira, 6 de julho de 2018

Crônica - As copas da minha vida

É tempo de copa do mundo!
Milhões estão torcendo pela seleção brasileira enquanto outros tantos milhões estão criticando o evento, dizendo que deveríamos prestar atenção em outras coisas mais importantes, mas o fato é que todo estão a notar a competição.

Dito isso, me explico porque decidi fazer esse texto. É porque o formato da competição a cada 4 anos me fez pensar o quanto as nossas vidas mudam e como pessoas como eu, que adoram essa competição, costumam se lembrar bem do que estavam fazendo durante o evento.

Também é perceptível o quanto me vejo diferente a cada copa, por isso venham comigo nessa viagem pela minha vida nas copas.

1984 - Apesar de ter nascido em 1979, não tenho absolutamente nenhuma lembrança da copa de 1982, e elas seriam as de uma criança muda, então começaremos pelo México em 86.
Eu estava com 7 anos, já havia ficado mudo e recuperado a fala e iniciava os anos escolares. Morava em um bairro agradável chamado Cidade Dutra, em São Paulo e era um menino tímido e de cabelos lisos caídos na testa.
Essa copa marcou uma das poucas vezes que chorei por futebol. A derrota nos pênaltis para a França foi sofrida, apesar de eu pouco entender o que acontecia.

1990 - Eu já adentrava pelas portas da adolescência quando a copa aconteceu na Itália. Me lembro do álbum de figurinhas, de usar um desconfortável aparelho na garganta para corrigir minha voz fanha e pelas constantes brigas dos meus pais que resultariam na separação deles anos depois.
A derrota para a Argentina nas oitavas me deixou mais bravo do que triste. Lembro-me de sair à rua para afogar as mágoas justamente jogando bola com os amigos.

1994 - Esse ano me marca muito mais pela perda de Ayrton Senna do que pelo título brasileiro na copa. Eu estava com 15 anos, pais separados, jogador de RPG e vídeo games, tentando arrumar namorada.
Havia falhado em passar no vestibulinho no ano anterior e fazia um primeiro colegial de poucas esperanças. Foram tempos sombrios onde escrevi as minhas primeiras poesias. Sim, muito antes de me dedicar à prosa, eu já escrevia versos,

1998 - Aos 19 anos muito havia mudado em minha vida. Consegui fazer um colégio técnico e isso mudou meu futuro profissional por completo. Nessa época eu trabalhava como técnico de telefonia no jornal A folha de São Paulo e lembro que compramos uma TV usada de 20 polegadas em uma banca de jornal por 150 reais.
A vida em casa era um inferno e eu já pensava em me emancipar, só não sabia como fazer isso trabalhando de dia e estudando de noite para viver de bolsa auxílio.
A derrota vexaminosa da seleção para a França, ainda um caso de teorias de conspiração, não me doeu muito, eu tinha coisas mais importantes a resolver.
Nessa época, as ideias para escrever O mistério de Boa Esperança e Um poema de guerra já haviam surgido, mas me faltava capacidade para escrevê-las.

2002 - Assisti ao Brasil bater a Alemanha naquela mesma TV comprada na banca de jornal. Agora na minha própria casa. Era alugada sem custo pelo meu pai, mas eu estava finalmente tocando a própria vida. Para não morar sozinho, adotei uma cachorrinha, a saudosa Natie...
2002 também foi o ano em que concluí a faculdade de Análise de Sistemas e eu já namorava com a minha atual esposa a dois anos. Assistimos juntos aquela final.
Eu também já tinha meu próprio carro e já havia conseguido um emprego mais rentável.

2006 - Aos 27 anos eu já estava casado, já havia comprado um apartamento (graças à renda conjunta com a esposa) e já estava estabelecido em um bom emprego. Já havia comprado um carro zero financiado em mil prestações e a TV em que assisti ao Brasil ser eliminado para a França nas quartas era de 29 polegadas, um "must" para a época.
A mudança para o apartamento me obrigou a deixar a Natie aos cuidados de uma senhora e, após muita insistência da esposa, adotamos a Puppy, uma bola de pelo que, naquela copa, estava operada do joelho e exigindo cuidados. Deixou muita saudade.
Essa também foi a primeira copa sem o meu pai, falecido em 2003. Lembro-me com pesar que sempre quis presenteá-lo com uma camisa da Espanha, que ele tanto gostava, embora não tenha sido possível.
Pessoas vão, pessoas chegam. Em 2006 já eram nascidos meu querido sobrinho Enzo, além do meu querido afilhado Eduardo e ainda naquele ano chegava a Iara, minha sobrinha.

2010 - Me lembro bem dessa copa como aquela em que assisti com os amigos, já que agora eu morava em uma casa grande e pudemos assistir juntos aos jogos. A TV já era uma smart de 29 polegadas.
Essa casa me permitiu recuperar a Natie, a cahorrinha que precisara doar porque não cabia no apartamento. A copa aconteceu exatamente um ano após a perda de minha mãe, em 2009.
Nessa época eu brigava com um rascunho de O mistério de Boa Esperança e sonhava torná-lo realidade um dia.

2014 - Um novo emprego na maior empresa de telecom do mundo. Uma nova cidade, uma casa que é minha, mas não posso vender porque há problemas de documentação. A copa do Brasil aconteceu num cenário totalmente diferente, em Limeira, interior de SP.
A decisão de deixar o stress de São Paulo para trás foi acertada e no meio dessa copa fui buscar meu último carro na concessionária.
Este ano é marcado pela perda da Puppy, em Setembro, com certeza a perda que mais me doeu até hoje.
Eu vivi ótimos momentos na nova cidade então nem dei bola para o 7x1.

2018 - Apesar de haver muitas mudanças a cada 4 anos, esses últimos foram bastante intensos. Talvez porque as memórias estão mais vívidas, talvez porque foram mudanças realmente significativas.
Perdi o emprego em 2015 e me vi no dilema de voltar a Sampa porque não há empregos semelhantes aqui na região. Resolvi ficar e realizar alguns sonhos: Entrei na faculdade de Letras, lancei dois livros, virei professor de inglês.
Mudei para uma outra casa, agora própria e adotamos Diana, a cachorra mais violenta do mundo. Estou casado a 15 anos e, apesar de relacionamentos terem os seus altos e baixos, casar com a Fernanda foi a decisão mais acertada desta vida.

Para a próxima copa? Terei terminado a faculdade, quero viajar mais, lançar mais livros, chegar ao grande público, adotar outro cachorro.
Impossível? Como você pode ver acima estou acostumado a grandes mudanças.

Um abraço a todos e obrigado por acompanharem estas memórias.
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